10/09/2014 17h08
Pela primeira vez em décadas, a
camada de ozônio caminha para ser plenamente recuperada, depois de uma
importante deterioração. Ela pode estar completamente reconstituída até 2050,
com um forte impacto sobre as condições climáticas no Hemisfério Sul. O buraco
sobre a Antártica deve começar a se reduzir a partir do ano de 2020. A constatação
foi publicada nesta quarta-feira, 10, pela ONU, depois de realizar por quatro
anos um estudo com 300 cientistas, inclusive brasileiros.
Em 2010, o informe apontava que não
havia qualquer tipo de sinal de melhoria. Agora, a entidade comemora a descoberta
e alerta que a recuperação apenas foi garantida graças a uma cooperação
internacional. O mesmo modelo, segundo a ONU, deve ser usada como exemplo para
os futuros acordos entre governos para lidar com o clima.
A camada de ozônio protege a terra de
raios ultra-violetas emitidos pelo sol e, diante da emissão de diversos gases,
estava perdendo sua força com a formação de buracos que chegaram a ter a
dimensão de verdadeiros continentes. "Mas diante de certos indicadores
positivos, a camada de ozônio deve se reconstituir até meados do século",
comemorou o diretor-executivo do Programa da ONU para Meio Ambiente, Achim
Steiner.
Segundo ele, até 2050 a projeção
aponta que a camada poderá voltar a seus níveis de 1980, data que serve de
referência. O auge do problema foi identificado em 1993. Agora, a constatação é
de que, a cada ano, a concentração de gases nocivos tem caído em 1%. A previsão
é de que, diante desse cenário, 2 milhões de casos de câncer de pele
conseguiram ser evitados até 2030.
Se todas as emissões de gases foram
interrompidas, a camada estará recuperada no ano de 2039, um cenário que os
cientistas admitem que não é mais realista. Nem todas as regiões reagirão da
mesma forma. As taxas estarão recuperadas antes da metade do século em
latitudes médias e no Ártico.
Sul
A situação na Antártica ficará para
um período um pouco mais tarde. O buraco continua a se formar a cada primavera
e isso deve continuar pela maior parte do século. Isso porque, mesmo se as
emissões de substâncias pararam, o acúmulo na atmosfera ainda terá um impacto.
No Hemisfério Sul, o buraco provocou
importantes mudanças no clima durante o verão, com altas nas temperaturas da
superfície, impacto nas chuvas nos oceanos. A Península Antártica também se
transformou no local com a mais rápida elevação de temperatura do mundo. Em
2006, o buraco sobre o Polo Sul alcançou um recorde diante de um inverno
especialmente frio. No total, a camada foi afetada em 29,5 milhões e
quilômetros quadrados.
Pelas novas constatações, os
cientistas apontam que o tamanho do buraco não vai mais se expandir. "A
expansão do buraco como vimos durante anos não deve mais ocorrer",
declarou Geir Braathen, principais cientista da Organização Meteorológica
Mundial. "Talvez teremos mais dez anos de estabilidade e, a partir de 2020
ou 2025, ele começará a fechar", explicou.
O impacto disso será uma reversão no
ritmo de aquecimento na Península Antártica. Já na América do Sul, essa
tendência será confrontada com a previsão do aquecimento da região por conta
das mudanças climáticas.
Para os cientistas, o que garantiu o
resultado foi a aplicação do Protocolo de Montreal que, em 1987, estabeleceu
regras para o uso de certos produtos, como o CFC, usados em geladeiras e
aerossóis. O acordo foi fechado depois que se constatou que, em todo o mundo, a
camada sofreu uma forte diminuição de seu tamanho em toda a década de 80 e
parte dos anos 90.
Desde então, as emissões de CFC foram
reduzidas em 90%, cinco vezes superior ao que se pede para a redução de CO2 no
Protocolo de Kyoto. Como resultado, as regras de 1987 conseguiram estabilizar a
perda da camada de ozônio a partir de 2000 e, agora, ela começa a aumentar.
Alerta
Mas o informe também alerta para a
rápida elevação de certos produtos que passaram a ser usados como substitutos
para os gases proibidos. Segundo os cientistas, esses novos produtos também
podem produzir gases de efeito estufa, como o HFC.
Os dados mostram que o ritmo de
expansão é de 7% ao ano. "Essas substâncias vão contribuir de forma
importante às mudanças climáticas e o aquecimento do planeta", alertou
Geir Braathen. A ONU e os cientistas pedem que esse produto seja abandonado e
substituído por elementos menos nocivos.
Os cientistas também apontam que o
futuro da camada de ozônio na segunda metade do século ainda dependerá da
concentração de CO2 e metano, que continuam a aumentar. "O que está em
jogo é muito importante ainda", alertou Steiner. "Mas o sucesso no
caso da camada de ozônio deve servir como exemplo para a negociação de acordos
sobre o clima. Temos as provas sólidas da importância da cooperação para
garantir a proteção de nosso patrimônio comum", alertou.
Seu recado tem um destino claro: as
negociações sobre um acordo climático, marcadas para o dia 23 de setembro em
Nova Iorque.

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